A Guerra Não Tem Rosto de Mulher

        Falar sobre a guerra é fácil. O que mais encontramos são relatos contados a partir do ponto de vista masculino. De soldados e generais que lideraram seus exércitos nos campos de batalha, porém esses relatos excluem uma parte da história muito importante; as mulheres. Qual o papel feminino durante a guerra?


        Por muitos anos esses relatos foram esquecidos até que a autora Svetlana Alekseievitch – vencedora do prêmio Nobel de literatura de 2015 - resolve trazer a tona um compilado de entrevistas com mulheres que estiveram presentes direta e indiretamente na Segunda Guerra Mundial.

        Recheado de histórias emocionantes e, às vezes inacreditáveis, mergulhamos neste universo de caos e tristeza que se tornou a vida das jovens que lutaram nas fileiras do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra.

      Crianças. Meninas de apenas dezoito anos se alistaram para se tornar soldados, francoatiradoras, pilotos, operadoras, enfermeiras e o que mais fosse necessário. Mulheres que só queriam ser mulheres, mas que se deparam com a triste realidade de um campo de batalha.

“Passei três anos na guerra... E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu vida. Não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita... Quando meu futuro marido me pediu em casamento... Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag... Ele disse: “A guerra acabou. Sobrevivemos. Tive sorte. Case comigo”. Eu queria chorar.”

     Dentre os vários relatos, nos deparamos, por exemplo, com a triste realidade das enfermeiras e desmitificamos a ideia da enfermeira que nos é apresentada nos filmes, como sendo aquela mulher arrumadinha e vestida de branco quando na verdade elas passavam a maior parte do tempo afundada em lama; rastejando nas trincheiras; arrastando homens com o dobro de seus pesos, correndo risco de serem atingidas – o que muitas vezes acontecia. Cobertas de sangue e sujeira, sem dormir, sem comer e cercadas pela morte.

“Aos dezenove anos recebi a medalha por Bravura. Aos dezenove anos meus cabelos ficaram brancos. Aos dezenove anos, na ultima batalha, um tiro pegou meus dois pulmões, a segunda bala passou no meio de duas vértebras. Minhas pernas ficaram paralisadas... E fui dada como morta...” (Nadiéjda Vassílievna Aníssimova, enfermeira-instrutora do batalhão de metralhadoras)


      O livro é, sem duvida, extraordinário. Tocante em vários sentidos. Em minha opinião, é leitura obrigatória para quem tem interesse pelo assunto.



Cíntia Furtado

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